EDITORIAL    
     
Neste início de dezembro, não há como ficar insensível ao sofrimento vivido pelos nossos irmãos catarinenses, diante da tragédia que causou tantas vítimas, dores e danos. Nós que já trabalhamos com situações críticas, de grandes catástrofes, sabemos que muito precisa ser feito para prestar a assistência necessária às vítimas, assim como conhecemos as imensas dificuldades enfrentadas pelos órgãos públicos na realização desse tipo de atendimento. Uma representante do 4 Estações esteve em Belém do Pará, no último dia 26 de novembro, para uma palestra no IV DEFENCIL – IV Seminário Internacional da Defesa Civil, e teve oportunidade de participar de uma breve reunião com representantes de Santa Catarina que lá estavam e relataram dificuldades de acesso e da escassez de recursos no socorro às vítimas. Sabemos que a Defesa Civil do Estado de Santa Catarina tem relação próxima com o CRP da região e, esperamos que consigam realizar um trabalho em conjunto. A população não afetada pela tragédia, por sua vez, também pode ajudar. Pode-se enviar auxílio financeiro e doações diversas (veja quadro abaixo).

Dia 1º de dezembro é o Dia Mundial da Luta contra a AIDS. Aproveitamos a oportunidade para apresentar o resumo de dissertação de mestrado da psicóloga Tânia Regina Corrêa Souza, coordenadora do Atendimento Domiciliar Terapêutico e Paliativo do Centro de Referência e Treinamento DST/Aids-SP.

Na seção entrevista, apresentamos o psicólogo Márcio Gagliato, representante da ONG americana CARE, que vive e trabalha no Quênia. Gagliato tem uma experiência de destaque em outros países, no cuidado aos trabalhadores em situações de emergência.

Estivemos no Workshop “Fortalecendo a resiliência familiar: facilitando a recuperação e o crescimento em situações de crise, trauma e adversidade”, nos dias 14 e 15 de novembro, em Londrina, PR. Promovido pelo departamento de Pós-Graduação do Centro Educacional Evangélico ISBL, contou com a presença da psicóloga e assistente social Froma Walsh, da Universidade de Chicago. Durante o evento, tiveram destaque os seguintes temas: fortalecimento da resiliência familiar; importância dos vínculos com animais de estimação; facilitação do enfrentamento de situações de luto complicado, famílias em situações de multi-stress e espiritualidade. Foi enriquecedor e gratificante voltar a encontrar esta profissional que muito tem estudado e contribuído para este campo do conhecimento.

Ainda em novembro, no dia 25, participamos do I Simpósio Brasileiro de Eventos Adversos em Medicina, SAFETY 2008, no Rio de Janeiro. Na ocasião, tivemos oportunidade de apresentar a experiência sobre intervenções em emergências, para uma platéia atenta e interessada. A inserção da Psicologia em eventos desse gênero vem nos mostrar que

 

estamos na direção correta, quando buscamos interlocutores nos diferentes campos do saber, que tenham atenção por temas complexos com os quais podemos trocar.

Gostaríamos de destacar nesta edição, o trabalho de uma ex-aluna do 4 Estações, a médica Adriana Thomaz, que teve trabalho aceito para apresentação no III Congresso Internacional de Cuidados Paliativos, realizado na última semana de novembro, em Brasília. O estudo intitulado “Educação nos Temas Ligados ao Fim da Vida e aos Cuidados Paliativos no Contexto Hospitalar”, está baseado no projeto GIRASoHL, que tem como objeto de estudo a atenção a pacientes em estágio terminal, suas famílias e cuidadores, além da Equipe de Saúde. Adriana busca combinar perspectivas das ciências sociais e do voluntariado, com objetivo de educar e formar novos educadores para compreender que o estágio terminal da doença é uma situação complexa que ultrapassa o limite do simplesmente biológico. Do ponto de vista do paciente há necessidade de inclusão de todas as dimensões da sua subjetividade – psíquicas, familiares, culturais e sociais –, o que é mais grave quando envolve pessoas carentes de recursos sócio-econômicos, caso da população atendida na maioria dos hospitais públicos no Brasil. O projeto tem como objetivo compreender as representações sociais e emocionais dos pacientes frente à expectativa da morte e aplicar a experiência de cuidados paliativos complementares aos oferecidos no hospital, promovendo a humanização da atenção a pacientes terminais, suas famílias e profissionais de saúde que trabalham nesse campo. São utilizadas as técnicas de visitas e de observação participante. Os pacientes são acompanhados semanalmente, muitas vezes diariamente, pelos voluntários já treinados nos modelos descritos anteriormente. São oferecidos ainda, Grupos de acolhimento para os familiares enlutados e Grupos de Apoio dirigidos aos profissionais de saúde. Informações adicionais pode podem ser obtidas no link http://cuidadostotaisaofimdavida.blogspot.com ou por e-mail: adriana.thomaz@gmail.com

Nós, do 4 Estações, ficamos muito felizes em ver que nossos alunos têm possibilitado acrescentar ao seu trabalho novas formas de atuação que servem para trazer à realidade brasileira alternativas de cuidados com qualidade e sensibilidade. Aguardamos nossos ex-alunos no encontro dia 13, que será para nós, motivo de grande alegria.


Gabriela Casellato,
Luciana Mazorra,
Maria Helena Franco,
Valéria Tinoco

 
 COMO AJUDAR AS VÍTIMAS DA CATÁSTROFE OCORRIDA EM SANTA CATARINA
   
A Cruz Vermelha Brasileira-São Paulo, com quem o 4 Estações tem parceria, está recolhendo doações. Interessados podem entrar em contato com Aline Rosa, do corpo de voluntariado: agomes@cvbsp.org.br
Depósitos para Fundo Estadual de Defesa Civil podem ser realizadas nas contas abaixo, divulgadas pelo jornal O Estado de São Paulo na edição de 28 de novembro:
  Banco do Brasil, ag. 3582-3, c/c 80.000-7
  Banco do Estado de Santa Catarina, ag. 068-0, c/c 80.000-0
  Bradesco, ag. 0348-4, c/c 160.000-1
  Bco Itaú, ag. 0289, c/c 69971-2
   
 
 AGENDA
   
3 e 4/12. II Curso de Introdução à Psicologia Hospitalar - Hospital do Coração
São Paulo. Serão abordados temas fundamentais para profissionais da área da saúde: inserção do psicólogo no hospital, atendimento psicológico ao paciente oncológico e cirúrgico, saúde mental e cuidado ao profissional da saúde, morte no contexto hospitalar, atendimento psicológico à criança hospitalizada e sua família, avaliação psicológica para transplante cardíaco. Informações: (11) 3053-6611.
Site: www.hcor.com.br
   

5/12. 5° Encontro com a Arte Cinematográfica e a Psicologia
Florianópolis, SC. Nesta data será exibido o filme “Coisas que Perdemos

   
   

pelo Caminho”, cuja temática envolve luto, impacto da morte na família e adicção. Realização Fênix Psicologia. Inscrições até 03/12. Informações:
(48) 9973-7847 ou 9960-2653 - ivania@oletelecom.com.br ou marciallisboa@hotmail.com

   
6 e 7/12. X Encontro de Profissionais de Saúde e Educadores que Trabalham com HIV/ AIDS
São Paulo. Promovido pelo Grupo de Incentivo à Vida (GIV), o evento discutirá questões relacionados à educação e sexualidade, orientações sexuais, adesão, lipodistrofia, perspectivas para vacinas anti-HIV, direitos reprodutivos, compulsão sexual e bareback. Site: www.giv.org.br
   
   
07/12. Morte: Preconceitos, Conceitos e Transcendência
São Paulo, SP. A atividade tem por objetivo ressignificar a relação vida e morte por meio da espiritualidade contida na natureza. Coordenação de Luis Saporetti e Suely Scaretzini. Contato: info@aroni.com.br
   

10 a 13/12. VII Congresso Internacional de Saúde e Direitos Humanos
Buenos Aires, Argentina. Promovido pela Universidade Popular das Mães da Praça de Mayo. Público alvo: psicólogos, psiquiatras e estudantes da área da saúde.
Informações: 54 11 4382-1055.
E-mail: congreso@madres.org

   
 
 AGENDA DO 4 ESTAÇÕES
   
13/12. Encontro de ex- alunos do 4 Estações, das 9h00 às 19h00. O evento é uma iniciativa do 4 Estações Instituto de Psicologia para comemorar seus 10 anos de existência. A intenção é congregar e propiciar a troca de experiências entre os alunos que se formaram em nossa instituição. Os ex-alunos que desejarem apresentar trabalhos devem enviar resumos até dia 05/12, impreterivelmente. Destes serão selecionadas 12 (doze) apresentações, com o objetivo de refletir sobre a prática na área de intervenções em luto, avaliações, resultados, caminhos e limites. A seleção será realizada pela comissão organizadora. Instruções para preparação dos resumos: Os resumos devem ser em português. Título em letras maiúsculas, seguido do nome dos autores, departamento, Instituição e estado onde a intervenção foi realizada. Usar negrito apenas nas palavras Objetivo, Método, Resultados e Conclusão. Número total de caracteres com espaços = 2500. Envio somente on-line. Cada inscrito poderá apresentar até dois trabalhos como primeiro autor. Como co-autor, não há limite. Local: Espaço NGR, Rua Abílio Soares, 607, Paraíso, telefone: 3884-4455. Convênio com estacionamento Estapar próximo ao local (Rua Sampaio Viana, 425). Não será cobrada taxa de inscrição. Vagas limitadas. Informações e inscrições até 05/12/08.
   
Novidade para 2009. Você quer saber mais sobre a Teoria de Apego de John Bowlby no contexto psicoterapêutico? Em 2009, você terá esta oportunidade. Fique alerta. Em breve, mais informações no site.
   
 
 CARTAS DO LEITOR
   

À equipe do 4 Estações,

Estava sentindo falta de receber notícias desse trabalho maravilhoso que vocês realizam! O curso que fiz com vocês sobre atendimento em situações de emergência está me valendo muito, tanto em meu trabalho quanto na minha vida pessoal. Recentemente, enquanto estava fazendo um passeio com amigos, presenciei um acidente envolvendo uma família com três crianças e me senti confiante em agir prontamente, lembrando de tudo o que aprendi com vocês. Foi gratificante ajudá-los em um momento tão difícil. Percebi que minha participação contribuiu para facilitar um pouco o socorro naquele momento de tanta tensão. As pessoas à volta ficaram paralisadas, não sabiam o que fazer e quando me viram tomando algumas providências, se mobilizaram e começaram a ajudar também. Depois que tudo passou, fiquei com a sensação boa de que é possível amenizar a dor das pessoas em situações tão difíceis. Se precisarem de mim, estou e estarei sempre à sua disposição.
Regina de Oliveira Fernandes
Psicóloga Clínica
CRP 06/88894

Obrigada por sua carta, Regina. Ficamos felizes em saber que nosso conhecimento foi útil para você, que pode entender essa perspectiva de atuação e praticá-la com qualidade.
Um abraço da equipe do 4 Estações

   

Queridas professoras e amigas,

Já com muita estrada percorrida na prática da Psicologia Clínica, no Rio de Janeiro, cheguei ao 4 Estações alguns anos atrás, buscando ampliar a perspectiva do meu olhar para o paciente oncológico, sujeito a tantas e tantas perdas. Encontrei o que procurava e muito mais. Entrei em contato com uma grande mestra, Maria Helena Pereira Franco, que em pouco tempo passou a ser a Lelê, e com três discípulas, minhas mestras também, Gabriela (Gabi) Casellato, Luciana (Lu) Mazorra e Valéria (Val) Tinoco, formando um quarteto homogêneo na seriedade profissional e na postura humana. Qualidades indissociáveis, fundamentais, para quem arrisca aproximação com pessoas em sofrimento, assim eu aprendi. Com vocês, aprimorei meus conhecimentos, estudando, participando de Cursos, Jornadas, Simpósios, Encontros Internacionais, tendo a oportunidade de conhecer “ao vivo” Parkes e outros expoentes da área de Luto, vindos de vários países e de várias regiões do Brasil. Com vocês, revivi minhas próprias dores, meus lutos que supunha resolvidos, chorei, ri, compartilhei afetos, sentimentos (e lanches caprichados! ), e me aprimorei mais ainda. Teoria e vida, de fato indissociáveis, me capacitaram com mais consistência. Ao receber o convite para o Reencontro de Ex-alunos do 4 Estações, foi nisso tudo que pensei. Há muito que comemorar quando se percorre 10 anos de uma caminhada pioneira a partir da qual tantos novos caminhos se abriram (o meu é apenas um deles) em tantos cantos do nosso país. Gostaria muito de estar presente nesse Reencontro! Como tenho na mesma data um compromisso inadiável no Rio, essa cartinha é o meu abraço muito especial pra Lelê, pra Gabi, pra Lu e pra Val e pra todas as pessoas queridas que vocês me levaram a encontrar. Uma bela comemoração para todos!
Muitos beijos
Frida Rumen

Obrigada por sua carta, cara Frida, Lamentamos muito que você não possa estar conosco nas comemorações e no encontro de ex-alunos. Essa é exatamente a situação que buscamos, para rever quem esteve conosco nestes 10 anos e para compartilhar experiências. Você nos contou um pouco em sua carta e esperamos poder revê-la em breve. Um grande abraço de toda equipe.

   
 

Nota
Todas as cartas recebidas serão respondidas. Acompanhem nas próximas edições.

   
 
 DEPOIMENTO
   

Marília Tannure, estagiária do 4 Estações Instituto de Psicologia:

 
“No primeiro semestre de 2007, escolhi e freqüentei a disciplina eletiva " Morte e Luto " , na Faculdade de Psicologia, PUC-SP. Considerava o tema essencial para quem quer ser psicólogo. Gostei tanto da área que, vencidos os seis meses do curso, manifestei meu interesse em estagiar no 4 Estações, e entre minhas funções, agora sou monitora do curso de aprimoramento /especialização em luto , com um ano e meio de duração. Neste tempo, aprendi muito sobre apego, luto, morte – na teoria e na prática e agora que estou no 4º ano da faculdade, esses conhecimentos vão me ajudar muito no preparo do TCC ”.
 
 
   

DANIEL E LETÍCIA: FALANDO SOBRE AIDS

No livro Daniel e Letícia: falando sobre Aids (2004), duas histórias são apresentadas separadamente. A primeira é sobre Daniel, um menino infectado pelo vírus HIV, que tenta entender as diferenças e semelhanças entre as crianças que apresentam o vírus, e as que não são afetadas por ele. Letícia, personagem da outra história, é uma criança que quer saber o que é aids. Junto com seus colegas de escola, ela procura descobrir tudo sobre a doença. E neste momento surge Daniel, para explicar e compartilhar o que sabe com os demais.

 O livro, escrito em linguagem adequada à criança, conta  a mesma história a partir de dois pontos de vista. Produção: Casa de Apoio Siloé e Grupo de Incentivo à Vida (GIV). Editora Ave-Maria (www.avemaria.com.br).

Para esta edição entrevistamos o psicólogo Márcio Gagliato, representante da ONG americana CARE. Abaixo ele compartilha conosco sua experiência no cuidado a trabalhadores em situação de emergência.


4E: Como foi que surgiu seu interesse por trabalhar em situações críticas?

   

MG: Pra falar a verdade, eu não sei muito bem. Mas sei que tem raízes na minha infância. Fui escoteiro dos 6 anos aos 18. Por volta dos 14 anos de idade, me tornei socorrista oficial durante os acampamentos. Eu adorava essa tarefa, lia tudo o que era possível sobre primeiros socorros e emergência. Isso deixou marcas expressivas na minha personalidade, cheguei até a pensar em me tornar bombeiro. Anos mais tarde, antes de ingressar na faculdade, li uma reportagem numa revista que me fascinou, era sobre uma psicóloga que trabalhava em zonas de guerra, a matéria trazia uma foto dela em sua zona de trabalho, cercado de segurança e barreiras. Fiquei fascinado com a história e o trabalho daquela psicóloga. Na época nem passava pela minha cabeça me tornar psicólogo. Por incrível que pareça, eu a conheci no Timor-Leste dez anos depois, por acaso. Quando entrei na faculdade de psicologia, esse sentimento foi tomando cor e forma, fui amadurecendo e adquirindo um novo vocabulário, assim como postura ética, responsabilidade social e posicionamento político. Tomei a iniciativa junto com outros colegas estudantes de criar projetos relacionados a questões sociais, tentando levar a psicologia para os bolsões de pobreza da cidade de São Paulo e trazer essa realidade para a sala de aula também. Essa experiência me levou a lidar diretamente com a violência nas favelas, conviver com as famílias, conhecer suas redes e vulnerabilidade social. Foi minha segunda sala de aula, uma cadeira acadêmica muito especial e vital. Conheci violências de todos os tipos e formas. Foi uma escola da vida para mim, interrompida de maneira traumática, da noite para o dia. O chefe do tráfico local impediu nosso trabalho com ameaças de morte. O projeto acabou. Os lugares que conheci, histórias e experiências delinearam meu interesse e o sentido de vida do meu atual trabalho.

4E: Você pode contar um pouco de suas atuações anteriores?

MG: Poderia falar de várias, mas as atuações que me vêm à mente e que estão próximas ao que faço hoje foram duas: uma de cuidados ao cuidador e outra de psicologia transcultural época em que trabalhei em Timor-Leste. Por seis meses, entre 2004 e 2005, trabalhei nos projetos de saúde mental do Ministério da Saúde do Timor-Leste. Trabalhava nas remotas aldeias na ilha de Atauro treinando agentes locais e ao mesmo tempo coordenando uma pesquisa sobre prevalência de doenças mentais. Foi minha primeira experiência no campo da psicologia transcultural. Uma ilha com cerca de oito mil habitantes sem nenhuma infraestrutura (energia elétrica, água encanada, estradas). Um povo com três dialetos diferentes, com rituais e normas sociais tribais – come-se o que se planta, caça ou pesca. Imagine o que é chegar num lugar desse com as psicologias que temos? Imagina o que é falar num lugar desses, por exemplo, sobre saúde ou doença mental? Foi um trabalho de riscos e desafios logísticos e culturais, mas também extremamente rico e que contribuiu para ampliar nossos conhecimentos. A outra atuação que merece destaque foi o trabalho realizado com os agentes do Programa da Saúde da Familia (PSF) numa UBS da periferia de São Paulo. Coordenava encontros de grupos semanais com as equipes do PSF para dar suporte psicológico. Foi um trabalho maravilhoso poder escutar e legitimar as experiências dos cuidadores, afinal, quem cuida dos que cuidam? Legitimar um fórum de escuta fez o trabalho deles adquirir novos significados. Com esse trabalho pude ver a absoluta importância desses espaços e como eles podem trazer contribuições muito concretas.

4E: Atualmente, quais são suas atribuições?

MG: Hoje estou trabalhando para uma agência humanitária internacional chamada CARE International (www.care.org). Uma das cinco maiores agências humanitárias do mundo e que está presente em mais de 50 países com cerca de 15 mil funcionários locais e internacionas. Uma agência grande e forte, com enormes contradições intrínsecas como qualquer outra. Trabalho na sede regional da organização. Estou morando no Quênia, mas trabalho para a região central e leste da África, que inclui 9 paises, entre eles, DRC, Sudão e Somália os mais críticos. Sou o responsável pelo suporte psicossocial aos trabalhadores da agência que estão na linha de frente do trabalho. Cuido dos que cuidam. Não trabalho diretamente com a população. Descobri que são raros os profissionais estrangeiros que o fazem, justamente pelos limites da língua e cultura. Trabalho com os que trabalham com as populações nos mais diversos projetos, desde distribuição de comida a campos e vilarejos famintos até projetos de fortalecimento social de mulheres. Os desafios, como podem imaginar, são inúmeros. É um exercício pessoal e diário lidar com a impotência e com a dura realidade. Somália, DRC e Sudão vivem as situações mais complexas, o ambiente de trabalho é de altíssimo risco, logo de altíssimo stress. Na Somália, onde ultimamente tenho passado mais tempo, a vulnerabilidade é total, não existe Estado, e as milícias religiosas extremistas tomaram conta do local. Comida e água, bens essenciais, são escassos. É um lugar onde pessoas morrem pela mais absurda e imoral razão, a de falta de comida. É muito doloroso ver que ultimamente a Somália voltou ao noticiário somente devido aos piratas que tem atacado navios internacionais. É um show de horror. A insegurança nessas regiões é extrema, temos colegas de trabalho na Somália que encontram-se sob poder de sequestradores, há assassinatos no Sudão e insegurança geral no Congo. Estive em Hargeisa tempos atrás, norte da Somália, semana depois três carros bombas explodiram na cidade matando mais de 100 pessoas. Durante a semana que passei em Hargeisa, alguns me procuraram dizendo: Doutor, toda vez que fecho meus olhos e escuto qualquer barulho, penso que é tiro. Ou ainda: estou aqui por um golpe de sorte, uma bala vinha em minha direção, e alguém que por acaso passou na minha frente naquele exato momento, levou o tiro e morreu no meu lugar. Agora vivo com medo em qualquer ambiente público, o que eu faço? Esses trabalhadores vêem o que ninguém quer ver, e fazem o que ninguém quer fazer, Enfim, esse é meu cenário de trabalho e intervenção.

4E: Como lidar com o trauma e estresse a que essas pessoas estão expostas? Ainda mais sendo de culturas tão diferentes das quais as psicologias foram fundadas?

MG: Não existe resposta fácil para isso. Porém temos instrumentos muito bons como a presença, a escuta e o afeto. Esses instrumentos não são méritos da psicologia, mas ela contribuiu oferecendo suporte metodológico. Esses são os pilares fundamentais do meu trabalho, além da esperança, o que muitas vezes não é fácil de se ter. Ultimamente, tenho percebido com mais clareza um ponto que gostaria de explorar futuramente no ambiente acadêmico, o cinismo como sintoma dos trabalhadores humanitários, muito deles fazem o que fazem mas não acreditam, como se aquele automatismo de uma pessoa que trabalha numa linha de produção de uma indústria de carros, também estivesse de alguma maneira nos trabalhadores humanitários. É uma forma sutil de uma estética da violência de conseqüências desastrosas. Perdem a esperança, ou ainda, muitos nunca a tiveram (como ouvi várias vezes). Seria isso resultado do sofrimento ao qual estão expostos? Ou resultado da presença da ideologia do norte incorporada nas agências? Isso é trabalho da psicologia e do psicólogo.

4E: Em quê sua formação como psicólogo ajudou para o trabalho que faz ?

MG: Acho que as agências humanitárias possuem uma tecnologia fantástica no combate à pobreza. Possuem dinheiro ou tecnologia para isso. Eles têm os mais variados tipos de consultores, nos mais variados temas de altíssima competência. Mas acho que o recorte que a psicologia me deu, é muito único, e por isso traz uma contribuição muito exclusiva. Prestamos atenção na fala silenciosa, no não dito das pessoas e dos ambientes, pensamos o sentido das coisas, os processos, a subjetividade, os conceitos no fundo dos atos, ouvimos e legitimamos o sofrimento psíquico e social de uma maneira diferente, especial. Minha organização tem como lema o combate à pobreza, um psicólogo logo reage e se pergunta, mas de qual conceito de pobreza estamos falando? Psicologia com certeza não é como costumam imaginar, trabalho clinico pra tratar de pessoas com problemas mentais. É muito mais além.

4E: Um briefing de seu histórico profissional

Marcio Gagliato, 28 anos – Psicólogo e mestre em Psicologia Social pela PUC-SP. Foi Professor Universitário no Brasil, atualmente trabalha na CARE international, na região Central e Leste da África como Consultor para Suporte Psicossocial (Psychossocial Support Advisor). Faz parte do fellowship program do Centro de Estudos em Direitos Humanos da Columbia University (NY). É coordenador regional da da Third Milenium Foundation nas Américas. E-mail para contato: marcioscj@gmail.com

 
 

ASPECTOS PSICOSSOCIAIS DA AIDS

ENFRENTANDO PERDAS... RESSIGNIFICANDO A VIDA
Tânia Regina Correa Souza
tania@crt.saude.sp.gov.br

Durante nossa vida, enfrentamos situações de separações, perdas e lutos, que podem ou não estar vinculadas à morte. Em doenças crônicas como a aids, o processo de adoecimento é complexo, cercado de preconceitos e de eventos estressantes, onde as perdas ganham grandes

proporções e comprometem a vida dos indivíduos. Este estudo, apresentado como dissertação de mestrado no Instituto de Saúde vinculado à Secretaria de Estado da Saúde, teve por objetivo identificar e descrever as perdas vivenciadas pelos pacientes com HIV/aids, nos períodos identificados como estressantes. O trabalho, de abordagem qualitativa, foi realizado sob orientação da Prof. Maria Cezira Nogueira Martins. Foi utilizado como instrumento a entrevista gravada, do tipo semi-estruturada. A amostra foi constituída por 12 sujeitos, com idade entre 30-50 anos, usuários do CRT DST/AIDS - SP, em terapia anti-retroviral. O material obtido foi transcrito e submetido à análise temática, que permitiu o estabelecimento de duas grandes categorias: a das perdas e a da reorganização da vida. A primeira descreve os aspectos psicossociais na trajetória da doença, destacando-se as fases de: perda da imortalidade, identidade, saúde e esperança. Estas trouxeram perdas secundárias e afetaram as várias esferas da vida do sujeito (afetiva, familiar, sexual, social e profissional). A categoria reorganização da vida revelou que os sujeitos elaboraram essas perdas e ressignificaram suas vidas, utilizando diferentes figuras de apego: religião, família e profissionais de saúde. Os resultados mostram a necessidade
de priorizar a política de humanização, desenvolver estratégias seguras para diminuir o sofrimento psíquico dos pacientes nos momentos de crise e auxiliar na elaboração das perdas, construção de uma nova identidade e reorganização da vida. Apontam também que o sofrimento dos pacientes decorre não apenas de perdas físicas, mas, sobretudo de perdas sociais e emocionais. Os serviços especializados e profissionais de saúde devem estar estruturados para lidarem com os diversos momentos da aids na vida de seus pacientes, facilitando o processo de transformação.

 

DIA MUNDIAL DE LUTA CONTRA A AIDS

Em 1987, a Assembléia Mundial de Saúde, com apoio da Organização das Nações Unidas, elegeu o dia 1º de dezembro como Dia Mundial de Luta Contra a Aids. A data foi criada para reforçar a solidariedade e a compaixão para com as pessoas infectadas pelo HIV. Desde então, todo ano, o Programa das Nações Unidas para Aids (Unaids) define

um tema, com base no grupo social mais atingido pela epidemia, e traça estratégias para uma campanha de sensibilização da opinião pública nesta data. No Brasil, a data passou a ser adotada desde 1988, a partir de uma portaria assinada pelo Ministro da Saúde que, seguindo o exemplo da OMS, elabora uma campanha a cada ano para alertar a população sobre os avanços da doença. O laço vermelho é símbolo de solidariedade e de comprometimento na luta contra a aids. O projeto do laço foi criado em 1991, por um grupo de profissionais de arte de Nova Iorque, para homenagear amigos que haviam morrido de aids.
 

PREMIAÇÃO

A Sociedade Internacional de Psico-Oncologia está aceitando indicações para o Prêmio 2009, em quatro categorias:
Arthur M. Sutherland Award
- indivíduos com reconhecimento internacional por seu trabalho no campo da psico-oncologia; Bernard Fox Memorial Award - membros da IPOS ou da comunidade com expressiva contribuição no campo da educação, pesquisa ou liderança na área de psico-oncologia; Noemi Fisman Award for Lifetime Clinical Excellence - membros da IPOS ou comunidade com reconhecida contribuição clínica em psico-oncologia, os candidatos devem estar trabalhando no mínimo 10 anos nesta especialidade; Hiroomi Kawano New Investigator Award – novos pesquisadores do campo da psico-oncologia, que estejam realizando pós-graduação ou especialização. A cerimônia de entrega dos prêmios será realizada durante o XI Congresso Mundial de Psico-Oncologia, a ser realizado de 21 a 25 de junho de 2009, em Viena. Detalhes no site do evento:
www.ipos-society.org/ipos2009. Data limite para indicações aos prêmios: 19 de janeiro de 2009.