EDITORIAL    
     
Na 4ª edição do Boletim do 4 Estações, vamos contar a vocês como foi participar do encontro da International Work Group on Death, Dying and Bereavement (IWG), realizado recentemente em Provincetown, Massachusetts, Estados Unidos.  

O encontro reuniu pesquisadores, clínicos e pensadores interessados em questões relacionadas à morte, ao morrer, cuidados paliativos e luto. Participaram da reunião duas representantes do 4 Estações: Luciana Mazzora e Maria Helena Franco. Ambas integraram o grupo de discussões sobre perspectivas de pesquisa em luto. Nesse grupo, foram discutidas questões éticas e metodológicas para pesquisar luto, em suas diversas possibilidades, como avaliação da eficácia dos tratamentos, validação de escalas diagnósticas, pesquisa multicêntrica. Até a próxima reunião, em maio de 2010, na Alemanha, o grupo continuará trabalhando via internet, para implementar as propostas.

Uma colega de longa data, Profª Dra. Regina Bousso, da Escola de Enfermagem da USP, também participou do encontro.Tivemos a alegria de conhecer a Dra. Ester Shapiro, autora de livros importantes sobre luto na família, que estará em Porto Alegre em abril de 2009, em evento organizado pelo Centro de Estudos da Família e do Indivíduo (CEFI), sob responsabilidade da psicóloga Adriana Zilberman, com o apoio do 4 Estações. Durante a reunião, Luciana Mazorra entrevistou Dr. Colin Parkes, sobre o livro ‘Love and Loss’ (veja seção entrevista). Este foi traduzido para o português por Maria Helena Franco, com lançamento previsto para o 1º semestre de 2009, pela Editora Summus. Sem dúvida, o contato com pesquisadores de vários países, inseridos em diversas culturas, é uma experiência única,

   
 
Em pé, da direita para a esquerda: Margaret Stroebe, Barbara Monroe, Carl Becker, Louise Rowling, Nancy Hogan, Joachim Wittkowski, Ester Shapiro, Stephen Connor, Robert Neimeyer, Henk Schut, Marilyn Relf, Maria Helena Franco, Chris Davis, Christopher Hall. Sentados, da direita para a esquerda: Luciana Mazorra, Jacquelyn Taylor, Dennis Klass, Simon Rubin, Walter Rombouts, Rutmarijke Smeding, Ruth Malkinson.
 
 
 AGENDA
   
16 a 19/10. III Curso Introdutório de Cuidados Paliativos Casa do Cuidar
São Paulo. Serão abordados temas e questões que estão no dia-a-dia de quem cuida, entre eles: manejo de sintomas, avaliação clínica de pacientes adultos e pediátricos, suporte a família e dor em cuidados paliativos. Site: www.casadocuidar.org.br e www.luminaeventos.com.br
   
12 a 14/11. II Congresso Internacional da Rede de Bioética da UNESCO
Córdoba, Argentina. O evento organizado pelo Ministério de Saúde argentino reunirá
   
   
  especialistas internacionais do campo da bioética. Para mais informações escreva para: areabioetica@gmail.com
   
14 e 15/11. Workshop: Fortalecendo a resiliência familiar: facilitando a recuperação e o crescimento em situações de crise, trauma e adversidade
Londrina, PR. Promovido pelo departamento de Pós-Graduação do Centro Educacional Evangélico ISBL. Contará com a presença de Froma Walsh, mestre em Serviço Social do Centro de Formação em Terapia Familiar da Universidade de Chicago. Site: www.isbl.org.br
   
   

28/06 a 02/07/2009. XXXII Congresso Interamericano de Psicologia da Sociedade Interamericana de Psicologia (SIP)
Guatemala. O evento tem como lema: psicologia um caminho para a paz e para a democracia. Para envio de resumos, informação dos eixos temáticos, assim como da descrição das modalidades de apresentação, entre no link: http://sip2009.programacientifico.info/
abstract_po/
Envie seu trabalho até dia 31/10/2008. Inscreva-se no site: www.sip2009.org/pt_registro.html

   
 

que agrega valor inestimável ao nosso trabalho, junto à alunos e clientes. Voltamos muito felizes da reunião.

No último final de semana, participamos da celebração do Dia Mundial sobre Hospices e Cuidados Paliativos, em apoio ao evento promovido pela Associação Brasileira de Cuidados Paliativos. O Dr. Eduardo Bruera, do M.D. Anderson, de Houston, Texas, Estados Unidos, foi o destaque do evento. Ele defendeu a importância de ampliar o alcance da informação e da educação sobre cuidados paliativos, junto à população geral, para conhecer seus direitos, e, sobretudo entre os profissionais da saúde, aqueles que têm poder de decisão sobre a implantação e manutenção desses serviços nos hospitais, sem esquecer a importância da formação do profissional de saúde para atuar efetivamente na área. O evento contou também com a presença de diversos clínicos e pesquisadores brasileiros, que apresentaram seus trabalhos e idéias sobre o tema.

A resenha desta edição, de autoria de Gabriela Casellato, destaca o livro Psicologia e Humanização. Gabriela é co- autora de um dos capítulos, em parceria com Cristiane Ferraz Prade e Ana Lucia Martins da Silva. Maria Helena Franco e Fernanda Gouveia dividem outro capítulo, produzido a partir da tese de doutorado de Fernanda (leia seção produção científica).

Convidamos nossos ex-alunos para o Reencontro no 4 Estações – 10 anos. O evento será realizado no dia 13 de dezembro, das 9 às 19 hs, em São Paulo. Na ocasião, você terá a oportunidade de saber o que estudamos e como aplicamos esses conhecimentos na prática; como estão e o que têm feito nossos alunos, e o que fazemos para cuidar de quem cuida de gente. Reserve a data, e não deixe a inscrição para última hora. Venha comemorar conosco nossos 10 anos.

Leitores: enviem suas opiniões e sugestões sobre o Boletim, para que possamos aprimorá-lo e torná-lo um veiculo de comunicação agradável e eficiente. O que vocês acham de termos uma seção “cartas do leitor”?

Boa leitura!

Gabriela Casellato,
Luciana Mazorra,
Maria Helena Franco,
Valéria Tinoco

 
  AGENDA DO
  4 ESTAÇÕES
   
24 a 28/11. Estão abertas as inscrições para a 1ª fase do processo seletivo para o Curso de Especialização e Aprimoramento: Teoria, Pesquisa e Intervenções em Luto/2009. As entrevistas serão realizadas de 01 a 12/12. Os aprovados na primeira fase serão isentos da taxa de inscrição para o curso. Em fevereiro/2009 haverá uma segunda fase de seleção, se houver vagas.
   

Dias 28, 29 e 30/11. Curso de Psicologia em Emergências Pós Desastre - Módulo 1. A experiência do 4 Estações nesse campo é reconhecida dentro e fora do país. Público-alvo: profissionais e estudantes (último ano) da área da saúde interessados em adquirir conhecimentos e postura para lidar com crises desencadeadas por situações de emergência na comunidade. Vagas limitadas. Se você tem interesse em conhecer ou trabalhar neste campo, inscreva-se já: www.4estacoes.com – ou se preferir ligue para: (11) 3891 2576.

   
Dia 13/12. Nesta data, será realizado o Reencontro no 4 Estações – 10 anos. O evento será realizado no dia 13 de dezembro, das 9 às 19 hs, em São Paulo. Anote em sua agenda e inscreva-se!
   
 
 
 NOTAS
   
NOVAS PERSPECTIVAS
A Equipe de Oncologia da Faculdade de Medicina do ABC oferece tratamento oncológico gratuito à população, e participa de protocolos de estudo de novos medicamentos para câncer de pulmão e mama, conferindo uma nova perspectiva aos pacientes com estas duas neoplasias. Informações adicionais: (11) 4993.5491. Centro de Pesquisa em Oncologia Av. Príncipe de Gales, 821, anexo 3, Santo André SP.
   

LANÇAMENTO DE LIVRO Editora Via Lettera e Livraria da Vila Lorena convidam para o lançamento do livro Psicanálise e Velhice – sobre a clínica do envelhecer, de Dorli Kamkhagi. Dia 23 de outubro, das 19h00 às 22h00, Al. Lorena, 1731, Jardins, São Paulo. Participe!

   
EXAMES GRATUITOS
A Sociedade de Mastologia Regional São Paulo e a Nova Medicina Diagnóstica, por intermédio da União e Apoio no Combate ao Câncer de Mama (UNACCAM) realiza mamografia e exames radiográfico de pedidos encaminhados pelo Serviço Único de Saúde (SUS). Site: www.unaccam.org
   
 
   

Psicologia e Humanização: Assistência aos Pacientes Graves
Organizadores: Knobel, E., Andreoli, P. & Erlichman, M.
Editora Atheneu, São Paulo, 2008

O livro conta com a colaboração de vários profissionais de saúde (médicos, psicólogos, e fonoaudiólogos), que compartilharam suas experiências no contexto hospitalar, e que buscam e defendem o processo de humanização da assistência aos pacientes graves. Trata-se de uma proposta sensível e corajosa, pois aborda temas pouco discutidos ainda hoje, dentro dos hospitais e entre as equipes multidisciplinares.

O enfoque é a abordagem psicológica no cuidado aos pacientes graves, com especial atenção ao impacto emocional do adoecer e do morrer, para pacientes, familiares e profissionais. A reflexão é dirigida para clínicas específicas (cardiologia, neurologia, transplantes, oncologia, UTI e UTI Neonatal) com especificidades próprias mas que têm muitos pontos em comum, entre eles o complexo sofrimento dos pacientes ao estresse do ambiente hospitalar. Evoca diferentes settings e recursos psicoterapêuticos, como a música e a brinquedoteca. Ainda no processo de resgate da humanização, não poderia ficar de fora, a reflexão sobre religiosidade e as contribuições de diferentes religiões no fortalecimento do paciente e dos seus cuidadores no enfrentamento do adoecimento e da morte. E por fim, convida o leitor a refletir sobre o processo de luto antecipatório diante da morte, sob diferentes perspectivas. Nesta obra, podemos resgatar a idéia de que humanizar é, a priori, reconhecer e conhecer as nuances e a profundidade do fenômeno em questão. Este é o primeiro passo...um bom começo!   (Por Gabriela Casellato)                                   

O entrevistado desta edição é o renomado psiquiatra Colin Murray Parkes, consultor honorário do St. Christopher´s Hospice de Londres e membro do International Work Group on Death, Dying and Bereavement (IWG), desde sua fundação. A entrevista foi concedida à psicóloga Luciana Mazorra.

LM: Dr. Parkes, o senhor poderia nos falar um pouco sobre seu novo livro “Amor e Perda”?

CP: Amor e perda são dois lados da mesma moeda, você não pode ter amor sem o perigo de perder o que você ama. Acredito que para entender a natureza do amor e da perda,

precisamos entender como os apegos que fazemos ao longo da vida afetam a forma que reagimos quando perdemos as pessoas a quem estamos apegados.Trabalhei com John Bowlby e seu grupo, os autores da Teoria do Apego, uma área importante do pensamento sobre como padrões de apego entre crianças e pais colorem os apegos que farão mais tarde na vida. Por exemplo, uma criança que tem um padrão de apego muito inseguro em relação à sua mãe pode ser muito “grudada”, muito dependente da mãe, por diversas razões. Não quer dizer que não se amam. Elas se amam muito, quase demasiado. Este comportamento de “grudar” se mantém na vida adulta como uma tendência a depender de outras pessoas. Quando, mais tarde na vida, você perde alguém que você ama, você tem uma reação extrema de luto prolongado. Minha pesquisa demonstrou como os apegos estabelecidos na infância predizem como as pessoas irão enlutar-se na velhice. A pesquisa, baseada em pacientes psiquiátricos enlutados que buscaram minha ajuda como psiquiatra, confirma amplamente esta idéia. Há dois tipos principais de apego: o que podemos chamar de apego seguro, que tende a aparecer quando a criança tem pais suportivos, que a encorajam a brincar e explorar o mundo e aprender, mas também protetores quando precisam ser. Elas percebem um equilíbrio entre proteção e estímulo. Os apegos inseguros tendem a fazer parte de uma de três categorias: os “grudados”, que tendem a ter mães muito ansiosas, que dão a mensagem à criança “Você não irá sobreviver se você não ficar perto da mamãe”, e que freqüentemente ignoram ou subestimam a necessidade de autonomia da criança. Se a criança tenta brincar ou fazer amigos estão sempre preocupadas, dizendo: “Não faça isso, não faça aquilo”. A necessidade da mãe de controlar a criança influencia o modo que a criança se vê e isto persiste na vida adulta. Por outro lado, você tem pais que não toleram a proximidade, que inibem a necessidade da criança de ficar junto deles, de aproximar-se e mesmo de chorar. Podem ser muito intolerantes quando a criança chora. Os comportamentos naturais de apego, sorrir, querer proximidade, chorar e seguir, tendem a ser inibidos e a criança aprende a manter distância. O que se desenvolve é uma personalidade evitativa. A criança precisa dos demais para sobreviver, como todas as crianças, mas também tem que aprender a virar-se sozinha desde muito nova. Há uma certa ambivalência. As crianças evitativas relacionam-se com os demais de maneira muito controladora, sempre querendo controlar as outras crianças em torno delas. Tem receio dos professores na escola, mas também são rebeldes em relação a eles. Elas crescem com uma visão desconfiada do mundo: “As outras pessoas são perigosas e é preciso controlá-las ao invés de ser afetivo com elas.” Na vida adulta, os apegos que estabelecem tendem a ser conflituosos, eles também podem não tolerar a proximidade. É interessante como pais que não podem tolerar a proximidade, tem filhos que aprendem a não se aproximar. É o que fazem com seus companheiros, com seus filhos e isso cria uma série de problemas para eles. Quando perdem alguém, podem parecer lidar muito bem no início, mas tendem a apresentar dificuldades mais tarde. Podem ter pesadelos e todo tipo de evidências de que esta aparente indiferença aos demais é na verdade superficial. Meus estudos mostram que, especialmente entre os enlutados que buscam ajuda psiquiátrica, aqueles com uma relação de apego evitativo sempre se culpam porque acreditam que falharam nas suas relações, porque não conseguiram se aproximar. Então, estas questões precisam ser reconhecidas e cuidadas na terapia.

Há outra categoria, que é uma mescla das duas anteriores. Você pode dizer que a criança que tem apego excessivamente próximo, aprende a lidar com a mãe ficando próxima a ela, os evitadores aprendem a lidar com a mãe mantendo distância, mas, há uma outra categoria, o apego desorganizado. Isto ocorre quando você tem uma mãe cujos comportamentos são conflituosos. Uma situação comum: o filho nasce num momento em que a mãe vive uma situação de luto. Às vezes, ela está tão envolvida com seu luto, que não pode nem mesmo relacionar-se com seu filho -- e o negligencia. Em outras situações torna-se ansiosa e superprotetora. Então, a criança não tem uma estratégia efetiva para lidar com esta mãe. Às vezes, o filho se aproxima da mãe e ela o protege, outras vezes ela o repele. O resultado é o que se chama de desamparo aprendido. A criança cresce sem confiança na sua capacidade de lidar com os demais e, tem poucas razões para confiar nos demais. As duas coisas mais importantes que temos que aprender na infância é confiar em nós mesmos o suficiente e confiar nos outros, e ter um bom equilíbrio entre ambos. Estas crianças não têm capacidade de confiar em si mesmas e nos demais. Em momentos de estresse tendem a ficar deprimidos, culpam-se, ficam ansiosos, ficam cada vez mais desamparados. Não é surpreendente que pessoas com apego desorganizado sejam freqüentemente encontradas em serviços psiquiátricos.

LM: E também tendem a apresentar luto complicado?

CP: Sim. Só outra coisa, o modelo que acabei de apresentar não é imutável. Estas influências da infância são muito poderosas, mas experiências subseqüentes, e, especialmente a experiência de relações calorosas e suportivas podem desfazer grande parte do prejuízo de uma infância insegura.

 

CUIDANDO DE QUEM CUIDAVA: As transformações familiares diante de condições crônicas incapacitantes na meia-idade
Fernanda Gouveia Paulino, psicóloga
fgouveiapaulino@uol.com.br

Este trabalho, realizado a titulo de doutorado em Psicologia Clínica na PUC-SP, teve por objetivo compreender o impacto das situações de cronicidade na meia-idade, especialmente nos quadros de incapacitação com necessidade de reorganização do funcionamento familiar. Optou-se por abordar especificamente famílias em que houvesse filhos dependentes e cujo portador de condição crônica desempenhasse previamente o papel de provedor e/ou cuidador familiar.

Foi realizada investigação qualitativa da qual participaram oito famílias. A coleta de dados incluiu entrevista semi-estruturada, genograma familiar e parte do instrumento Entrevista Familiar Estruturada (EFE). Os dados obtidos foram discutidos a partir da teoria sistêmica sob uma perspectiva biopsicossocial, com o levantamento dos principais aspectos que permitiram a leitura da interligação entre as esferas biológica, psicológica e social.

Os resultados favoreceram a compreensão das transformações familiares diante de condições crônicas incapacitantes em adulto de meia-idade. Os quadros de incapacitação exigem transformações que atingem os ciclos de vida individuais e familiares e assim interferem de forma insidiosa na organização, relacionamentos e funcionamento da família. São requeridas substituições e impostas mudanças que envolvem perdas, com concomitante oferecimento de cuidado. Quando quem adoece está na meia-idade e centraliza as responsabilidades na família, a desestabilização do sistema é intensa e extensa e atinge várias áreas.

A qualidade de relacionamento prévio mostrou-se o fator mais significativo para a flexibilidade familiar e adaptação à condição. Foram discutidas as características do funcionamento familiar e repercussões nos cuidadores. A discussão dos resultados apontou para a necessidade de atenção psicológica às famílias em situação de adoecimento crônico considerando a estrutura e dinâmica familiar e do momento de ciclo vital.

A compreensão aprofundada de cada caso e de suas respectivas famílias permitiu a elaboração de reflexão sobre postura profissional, critérios para a investigação clínica e o alcance da psicologia da saúde no oferecimento de intervenções a famílias em situações de adoecimento.

Palavras-chave: doença crônica, incapacitação, funcionamento familiar, teoria sistêmica, psicologia da saúde.